Presente e Futuro

Ampliam-se as instalações, investe-se em tecnologia para atender a um mercado em expansão, cria-se nas fábricas o vidro "inteligente". O promissor futuro do vidro plano no Brasil já começou.

Tal como em outras áreas da atividade industrial no mundo inteiro, também no setor vidreiro as mudanças tecnológicas e mercadológicas tem apresentado uma notável tendência de aceleração. Enquanto até há pouco as grandes transformações levavam séculos para acontecer, hoje elas se produzem em décadas ou anos, impulsionadas por pesquisas científicas, desenvolvimento técnico e, principalmente, pelas demandas sociais.

Estação de trem utilizando o Pilkington Profilit

Mas há ainda outro aspecto a ser considerado neste processo evolutivo, e não menos importante. As inovações atuais, continuas e rápidas, ao contrário de estreitar os limites e esgotar as possibilidades de aplicação dos produtos, parecem ampliá-las cada vez mais. 

Esta pode não ser uma regra geral para toda a economia, porém, em relação ao vidro plano, trata-se de uma constatação correta e bastante adequada para o caso brasileiro. 

Num piscar de olhos

Se é verdade que a história do vidro no mundo tem pelo menos seis mil anos e se os sessenta séculos dessa longa duração fossem convertidos simbolicamente para uma escala de sessenta minutos, poderia-se dizer, então, que a história do vidro plano no Brasil tem pouco mais de meio minuto.

O Brasil entrou para valer na história industrial do vidro plano há muito pouco tempo e logo avançou dos últimos lugares para disputar posições de destaque. Como gostam de dizer os velhos vidraceiros, com a memória de quem se orgulha de ter participado das várias etapas do processo, num piscar de olhos o país saiu da pré-história para a vanguarda da indústria de vidro plano.

Exageros e ufanismos à parte, o fato é real e a versão é verdadeira. A trajetória do vidro plano é, seguramente, um caso especial na história da industrialização brasileira, pela aceleração, amplitude e intensidade da sua transformação. Em algumas décadas, o país saiu de processos antigos e pouco eficientes para a melhor tecnologia de produção e processamento do vidro, saiu da dependência das importações para a auto-suficiência industrial.

Em um período muito curto de tempo, além de capacitar-se para satisfazer as necessidades internas, o Brasil conseguiu dar ao mercado padrões equivalentes aos do primeiro mundo. Além de consolidar sua base industrial, o país procurou preparar-se para a dura competição global. 

O estado da arte

O Brasil, através da Cebrace, faz hoje chapas de vidro “jumbo” de vinte metros quadrados e de três até vinte milímetros de espessura para uso em arquitetura. Através da Blindex, da Santa Marina e de várias outras processadoras, produz pára-brisas laminados com a antena do rádio embutida e acionamento automático do limpador exatamente iguais àqueles utilizados pela indústria automobilística na Europa e nos Estados Unidos. Por intermédio de seus fabricantes, exporta cerca de cem mil toneladas de vidro float por ano para mercados americanos e europeus.

São algumas referências, poucas mas significativas, que atestam o alto grau de desenvolvimento da indústria brasileira de vidro plano. Que é resultado de trabalho, investimento e atenção ao desenvolvimento técnico da indústria mundial mostrado nas feiras e congressos internacionais.

Não seria presunção dizer que o Brasil conta hoje com uma base tecnológica consistente, atualizada e suficiente para tudo o que produz no setor de vidro plano. Também se pode afirmar que a indústria, pela estrutura de gerenciamento, produtividade, custo e qualidade de seus produtos, está em um nível de competitividade próximo do exigido pela globalização. 

Hoje, o desafio maior e imediato da indústria brasileira de vidro plano é o seu crescimento, para usar melhor a capacidade física, técnica e comercial existente e para continuar a expandi-la. As possibilidades são reais, começando pelo potencial do mercado interno ainda subaproveitado. O consumo per capita permanece baixo e pode ser substancialmente aumentado por meio, por exemplo, da retomada dos incentivos oficiais à construção civil, sobretudo nos programas de habitação popular, e da normatização do uso geral do vidro na arquitetura, tanto o comum como o de segurança. 

Já no mercado externo, as condições são mais complexas, mas as possibilidades existem. O Mercosul representa a melhor oportunidade no presente, porém, o país tem condições de encarar a disputa por outros mercados.

O futuro

No setor de vidro plano, ao contrário de outras atividades econômicas, nem sempre é fácil distinguir o presente e o futuro. Sobretudo em tempos de mudanças tão rápidas, em que uma ainda não se esgotou e a outra já está começando.

Quando se olha para o interior de um refrigerador de exposição em um supermercado e se localiza imediatamente a bebida preferida sem nenhum problema de embaçamento, quando se vê uma casa térrea que no lugar das grades de ferro tem vidros em todas as janelas, está-se vendo o presente. Quando se olha para uma fachada esguia e elegante de um prédio e se percebe que os vidros estão sempre impecavelmente limpos, está-se vendo o futuro.

Nestes exemplos, o presente, corresponde aos os vidros únicos ou duplos comuns feitos para absorver ou refletir luz e calor na medida certa, ou vidros temperados e laminados de segurança altamente resistentes a golpes e impactos. O futuro mostra os vidros duplos feitos no processo coating, tão ou mais revolucionário que o float e também desenvolvido nos laboratórios do grupo Pilkington. 

O coating é um processo onde o vidro recebe uma finíssima camada de um composto mineral que impede a aderência da poeira e possibilita a limpeza da superfície pela água das chuvas. No caso dos vidros duplos para janelas e fachadas, essa camada colocada entre as duas folhas permite que uma permaneça na temperatura do ambiente interno, enquanto a externa se aquece ou se esfria conforme as condições climáticas.

O futuro está chegando pelo processo coating, e com ele o esperado vidro seguro e inteligente. O vidro capaz de gerenciar autonomamente a refração da luz, a absorção do calor e a emissão de ruído ao longo do dia e da noite e das estações do ano está nascendo nas mesas dos engenheiros e nas experiências dos químicos e nos desenhos dos arquitetos. 

A relação entre o valor estético e o valor funcional no projeto do envidraçamento de uma fachada ou de um automóvel – ou em qualquer outro projeto – está sendo equacionada como nunca antes pelos novos processos.

Além do mercado

Mas nem só de eficiência gerencial e sofisticação tecnológica viverão empresas no futuro. Ao lado das exigências mercadológicas, elas terão que lidar cada vez mais com as exigências da sociedade como um todo e das comunidades locais em particular. Os interesses comerciais terão que conviver cada vez mais de perto com o respeito aos parceiros, aos consumidores e ao meio ambiente.

Cursos de treinamento de mão-de-obra, de técnicos instaladores por exemplo, como os promovidos regularmente pela Cebrace, programas de divulgação de normas técnicas, programas permanentes de reciclagem de vidro envolvendo toda a cadeia produtiva e sistemas de tratamento de efluentes instalados pelos grandes fabricantes mostram que também o setor de vidro plano brasileiro está procurando responder às questões que emergem no presente e antecipam o futuro.

A ética nas relações inter-empresariais, nas relações das empresas com seus clientes e o diálogo com as comunidades onde atuam são a chave para mais um ciclo de crescimento. 

Quem faz vidro com qualidade faz uma história transparente.

Vidro, Magia e Mistério

Substância inorgânica, homogênea e amorfa, obtida através do resfriamento de uma massa em fusão: é assim que o manual técnico Cebrace define a natureza do vidro. E depois de lembrar que suas principais qualidades são a transparência e a dureza, o manual acrescenta que ele se distingue, com vantagem, de outros materiais por não ser poroso nem absorvente, por ser ótimo isolador elétrico e possuir baixa dilatação e condutividade térmica.

Se esses são os atributos do vidro para os técnicos envolvidos com a produção, para os arquitetos, poetas, artistas, observadores e simples consumidores as qualidades são outras, certamente: elegância, leveza, brilho, luz, conforto e segurança.

Nenhuma discrepância. Todos os olhares convergem para o mesmo ponto: a magia e o mistério de um produto cheio de sutilezas. Os estudiosos, depois de séculos de pesquisa ainda divergem quanto à verdadeira estrutura física do vidro, se ele afinal é sólido ou líquido. E os leigos continuam a se indagar como um material pode ser ao mesmo tempo, tão duro e tão frágil, tão firme e tão maleável, tão simples e belo. O vidro guarda mistérios antigos e sua fabricação ainda tem muito do velho processo alquímico.

É um material único na natureza, que permite ver sem ser visto.

É uma material mágico, capaz de transformar planos inertes em planos ondulantes com o reflexo dos movimentos da luz e da sombra.

Grande parte dessa magia tem sido revelada para o mundo pela arquitetura brasileira, em lugares como o plano piloto de Brasília 40 anos atrás e a região da Avenida Engenheiro Luis Carlos Berrini, em São Paulo atualmente. Os efeitos estéticos e práticos criados e recriados nesses projetos confirmam que a magia do vidro continua.